Pesquisadores da UFCA e IFCE apontam que a falta de aterros sanitários potencializa efeitos tóxicos do lixo e emissão de gases poluentes durante o fenômeno
A intensificação do fenômeno El Niño acende um alerta vermelho para a infraestrutura ambiental e hídrica do Cariri. Conhecido por prolongar o cenário de secas no Nordeste, o evento climático atingiu a categoria de “Super El Niño”, o que traz consequências severas para a região. Com a escassez de chuvas e a evaporação rápida das águas superficiais, a população passa a depender massivamente dos aquíferos. Nesse cenário crítico, especialistas apontam que a manutenção de lixões a céu aberto representa uma grave ameaça de contaminação ambiental e aumenta o risco de incêndios.
Dados do último relatório do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Sinisa), publicado em dezembro de 2025, apontam que dos 29 municípios que compõem a região do Cariri, 20 ainda utilizam lixões, enquanto apenas dois contam com a estrutura adequada de aterros sanitários. Na Região Metropolitana do Cariri (RMC), das nove cidades que a integram, sete ainda fazem o descarte irregular em lixões e apenas uma utiliza aterro.
A professora Celme Torres, pesquisadora da Universidade Federal do Cariri (UFCA) e especialista em recursos hídricos, explica que o Super El Niño ocorre quando o aquecimento do Oceano Pacífico quebra recordes, ficando 2,0°C ou mais acima da média. “Pode parecer pouca coisa, mas dois graus a mais representam uma quantidade absurda de energia extra na atmosfera”, detalha.
Para o Cariri, isso se traduz em precipitações abaixo da média, períodos longos sem chuva e temperaturas elevadas. “Essas condições afetam diretamente a disponibilidade hídrica para abastecimento humano. Com a seca prolongada, há uma redução significativa na recarga dos aquíferos, pois menos água alcança o subsolo. Ao mesmo tempo, a demanda por água subterrânea aumenta, já que poços passam a ser mais utilizados”, afirma a professora Celme.
Embora as reservas subterrâneas da Chapada do Araripe tenham alta capacidade e não se esgotem diante de um único evento de seca, a pesquisadora da UFCA alerta para o perigo do uso intenso. “O maior risco é o desequilíbrio entre a recarga natural e a retirada de água. Se esse cenário persistir, podem ocorrer reduções significativas nos níveis dos aquíferos, comprometendo as nascentes e o abastecimento”.
O perigo invisível
É exatamente devido a essa alta dependência das águas subterrâneas que a falta de infraestrutura sanitária se torna uma crise iminente. A professora Amanda Pino, engenheira e pesquisadora da UFCA, alerta para a letalidade gerada pela decomposição do lixo irregular durante a estiagem, com a liberação do lixiviado, conhecido popularmente como chorume.
“Eu costumo dizer aos alunos que o lixiviado é o ‘suquinho do lixo’, uma polpa concentrada com um potencial de contaminação até cem vezes maior que o esgoto doméstico comum. E considerando a seca, quanto mais seco for, mais tóxico é esse efluente”, detalha Amanda. “Se eu não faço um direcionamento para o aterro sanitário, ele infiltra no solo. É uma infiltração no solo de metal pesado, matéria orgânica, matéria inorgânica, nitrogênio, amônia, diversos compostos que são extremamente nocivos, tanto à saúde pública quanto ao meio ambiente. Inclusive, a maior parte desses compostos não são removidos pelos processos convencionais de tratamento de água”, acrescenta.
Além do risco subterrâneo, o perigo na superfície também se agrava com a disparada dos termômetros. Para o professor Germário Araújo, coordenador do curso de Engenharia Ambiental do IFCE – Campus Juazeiro do Norte, a combinação de lixões com o clima extremo é uma fórmula desastrosa. “Temperaturas mais elevadas, nessa cadeia ambiental, podem desencadear outros problemas sistêmicos. Com uma maior evaporação, temos um maior metabolismo dos microrganismos. Então, em lixões, essa decomposição vai ser muito maior, liberando mais biogás, mais metano, que é gás de efeito estufa.”

A gestão de resíduos
Para o setor de sustentabilidade, o fenômeno escancara a urgência de repensar as políticas públicas. O encerramento dos lixões e a transição para aterros sanitários e centros de triagem deixaram de ser apenas uma obrigação legal.
“A destinação correta dos resíduos sólidos é uma medida de sobrevivência e adaptação climática. O El Niño reflete anos de descaso com o meio ambiente, e nos impõe o desafio de mudar a rota”, afirma Ingrid Botelho, gerente da Regenera Cariri. “Os municípios precisam entender que investir na gestão de resíduos é investir na proteção imediata das suas águas e na saúde da população”, destaca.
A professora Amanda Pino acredita que o ponto principal para a mudança é a educação ambiental. “O processo de educação ambiental, ele serve inclusive para que a gente tenha pressão popular para que tenha investimento e para que se pense, de uma forma responsável, do ponto de vista político, social, para a gestão dos resíduos”, completa.
