Solidariedade e economia circular: catadora em Nova Olinda recebe doações fruto de feira de trocas

Arrecadação realizada pela Regenera Cariri fortalece o trabalho social de Dona Orlanea, que transforma roupas descartadas em apoio

Em Nova Olinda, a sustentabilidade não é apenas um conceito técnico, mas uma prática diária de sobrevivência e solidariedade conduzida pelas mãos de Dona Orlanea Gomes. Conhecida na cidade pelo trabalho ambiental e social, a catadora de material reciclável percorre o lixão local coletando o que a sociedade descarta, com um olhar atento especialmente para as roupas. Material que, após um cuidadoso processo de higienização, ganha um destino nobre: a doação para famílias vulneráveis da comunidade.

Recentemente, o impacto do trabalho de Dona Orlanea foi além das doações diretas. Ela participou da Feira da Agricultura Familiar da cidade, onde realizou um bazar com as peças que havia coletado. Todo o valor arrecadado foi destinado aos pais de uma criança prematura da comunidade que enfrentava dificuldades financeiras. “A única solução que eu achei, para ajudar, foi pegar as roupas e fazer o bazar. Eu vendia a dois reais a peça”, conta Orlanea.

Dignidade na ponta da reciclagem

Para fortalecer essa rede de apoio, a Regenera Cariri doou, para Dona Orlanea, mais de 170 peças de roupas arrecadadas na segunda edição da Feira de Trocas, realizada no fim de março, pela concessionária. A relevância da conexão entre a mobilização urbana e a realidade de quem está na ponta da reciclagem é enfatizada por Ingrid Botelho, gerente da Regenera Cariri. Segundo a gestora, o objetivo é garantir que a economia circular ocorra de fato e transforme vidas.

“Acompanhar o trabalho da Dona Orlanea nos mostra que a economia circular só faz sentido quando gera dignidade. Ao destinar o que foi arrecadado na Feira de Trocas para ela, estamos garantindo que o gesto de quem doou na feira se transforme em amparo real para quem mais precisa em Nova Olinda”, afirma Ingrid.

Para Dona Orlanea, o apoio recebido é o combustível necessário para seguir enfrentando as dificuldades de um ofício muitas vezes invisível, mas essencial para o equilíbrio ambiental. Com a resiliência de quem entende o valor de cada peça recuperada, ela sintetiza seu orgulho: “Eu enfrento a vida aí, apesar de tudo que a gente passa, mas a gente tem que seguir e eu vou seguir minha ‘catadeira’ de lixo”, conclui.

Ela conta que a doação chegou em um momento oportuno devido à quadra chuvosa no Cariri. Para os trabalhadores que dependem do que é coletado nos lixões, este é o período mais crítico do ano. Além disso, Dona Orlanea relata um obstáculo sazonal específico: o descarte massivo de cascas de pequi. O fruto, típico da estação, solta uma pigmentação que mancha os tecidos que são descartados no lixão, inviabilizando o reaproveitamento e a doação.

Resultados da feira

Realizada na sede da Carrapato Cultural, em Crato, a segunda edição da Feira de Trocas resultou na arrecadação de 243 itens, sendo 174 peças de roupas, 19 pares de calçados, 25 acessórios e 25 livros.

A distribuição foi estratégica para atender diferentes causas: os livros foram destinados à biblioteca do Carrapato Cultural, enquanto calçados e acessórios foram entregues ao bazar do Projeto Ufcão, que cuida de animais abandonados nos campi da Universidade Federal do Cariri (UFCA) em Juazeiro do Norte e Crato. Já as roupas foram integralmente entregues a Dona Orlanea para dar continuidade ao trabalho social que ela realiza.